É fato: no último verão europeu, Putin não conseguiu avançar grande coisa com sua invasão criminosa e injustificada à Ucrânia. Óbvio que foi mais território que nos outros anos, mas uma área extremamente irrisória pra seu objetivo último de capturar Zelensky e sem ruptura maior na frente de batalha nem captura de grandes cidades estratégicas (fora um ou outro ponto logístico). Pior, nunca morreram ou se feriram tantos militares russos quanto no ano de 2025, em comparação com os três anteriores; e estima-se que só as baixas invasoras já são muito maiores que as ucranianas. O império da mentira é tão descarado que, enquanto o Estado-maior do agressor anuncia com fanfarra a tomada de uma cidadezinha lá no fim do mundo, os próprios blogueiros pró-guerra (chamados de “Z-voienkory”), cobrindo no local, negam as informações dos mestres! (Não duvido que esses sabujos um dia vão se lascar quando o Kremlin resolver estabelecer o monopólio da propagada...)
Quando o exército ucraniano se encontra em dificuldades, os simpatizantes ocidentais de Putin logo rejubilam dizendo pro público ingênuo que “agora a Rússia está com a iniciativa na guerra”; “guerra”, não “invasão”, “agressão”, “anexação” ou “genocídio”. Não nego que outras potências imperialistas no passado tenham usado a destruição de infraestrutura civil pra diminuir a resistência inimiga (os EUA no Iraque, especialmente em Bagdá, em 2003, por exemplo). Por isso, não quero ser acusado de hipocrisia ao tratar o caso de hoje. Mas o que me incomoda não são grupos “progressistas” se esquecendo de guerras ao redor do mundo (há dezenas, e ninguém, muito menos a direita liberaloide, dá conta), e sim claramente pintando criminosos como vítimas ou anti-imperialistas.
Nessa invasão que virou guerra de usura, o recurso à avaria na água, luz, energia, transportes, aquecimento etc. revela justamente a fraqueza, e não a força, do lado que o comete. Porém, a história recente mostra que esse tipo de atitude gera muito mais resistência do povo agredido do que resignação e rendição. Se “viver pra ver”, Putin não vai ter que pagar só diante da Ucrânia e do resto do mundo, mas também, e sobretudo, diante da Rússia que ele está arruinando aos poucos (sim, pode demorar anos, mas os efeitos negativos um dia vão explodir) e dos muitos povos que ele está usando de carne de canhão. Se a tal “comunidade internacional” vai se conscientizar e finalmente tomar uma firme atitude um dia, já é outra questão. O que eu trouxe aqui são fatos que aparecem na mídia combatente em diversas línguas, inclusive russo, e independem de adesão ideológica ou partidária.
E um desses fatos que pode passar esquecido no futuro, mas que faço questão de registrar aqui, mesmo fazendo o mês de fevereiro ser aberto por inominável tragédia, foi informado por Kirill Martynov em seu Notícias Terríveis (Novaya Gazeta Evropa) deste sábado. Uma senhora de 90 anos, sobrevivente do Holocausto, morreu sozinha em seu apartamento de problemas no coração, agravados pela situação em que os bombardeios russos deixaram as infraestruturas civis. As autoridades locais (com que finalidade, hein?...) fizeram questão de ressaltar que o problema foi cardíaco, e não decorrente de congelamento, mas a nova ofensiva de Putin já está sendo chamada de “kholodómor” (холодомор), em analogia com o “holodomór” (голодомор), fome na Ucrânia em 1933-34 que Kyiv acredita ter sido arquitetada por Stalin. “Hólod” em ucraniano e “gólod” em russo significam “fome”, e “khólod” significa “frio” nas duas línguas.
A informação, que traduzi mais abaixo, foi dada em inglês no Équis pelo rabino-chefe da Ucrânia, Moshe Azman, e noticiada também em inglês pelo portal Inkorr, em russo pelo portal TSN e em ucraniano pelo portal Vikna. O mesmo Inkorr também noticiou o laudo sobre sua morte por isquemia cardíaca crônica, e não por hipotermia.
O mais revoltante é uma sobrevivente do Holocausto ter morrido perto de 27 de janeiro, dia internacional de lembrança de suas vítimas, e vários outros sobreviventes da Shoah, bem como veteranos, centenários ou quase, da 2.ª Guerra Mundial (que a memória stalino-putinista instrumentalizou como “Grande Guerra Patriótica”) terem perecido sob as bombas do Kremlin, apesar de sua verborragia “antifascista”. A mesma comemoração que parte da esquerda lembra pelo fato dos soviéticos terem sido os libertadores de Auschwitz não os alerta sobre o crescimento global do antissemitismo, sobretudo na Rússia “anti-imperialista”, e a distorção, por esse invasor, do combate ao adolfismo, que cresce a olhos vistos em sua própria pátria.

Em Kyiv, Ievgenia Mikhailovna Bezfamilnaia [tal como figura no post, deixei o nome em russo, e Martynov disse que ela falava essa língua e o ídiche], uma senhora de 90 anos da comunidade judaica, morreu devido às condições de vida insuportáveis. Ela sobreviveu milagrosamente ao Holocausto, mas não sobreviveu às ações dos “desnazificadores” ruSSos, que a condenaram a uma morte terrível em um apartamento gelado durante uma severa onda de frio invernal, privando não só ela, mas todos os moradores de Kyiv de aquecimento, água e eletricidade. Numa época em que a temperatura chegou a 24 °C negativos!!!
Oficialmente, a causa da morte consta como insuficiência cardíaca, mas todos nós entendemos perfeitamente que, dada a sua idade e as suas inúmeras doenças, as terríveis condições de vida em que se encontrava, devido aos constantes ataques ruSSos à infraestrutura civil de Kyiv, simplesmente “acabaram” com esta avó heroica, que resistiu até o fim...
Ievgenia Bezfamilnaia foi morta pelo exército ruSSo, assim como o médico Alexander Bonder, de 84 anos, membro da comunidade judaica de Kherson, que faleceu recentemente em decorrência dos ferimentos sofridos em um bombardeio ruSSo. Sob os slogans de “desnazificação” e “libertação”, eles lançam drones, mísseis e todos os meios de destruição, matando pessoas inocentes na Ucrânia e condenando-as a uma existência em um frio insuportável, sem água ou eletricidade...
O funeral de Ievgenia Mikhailovna será realizado no domingo, no cemitério judaico de Barakhty.
Baruch Dayan a-Emet. Que sua memória seja abençoada!
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